24.1.12
De “O peixe e o pássaro”(1974) a “Vermelho Amargo” (2011) - Terezinha Pereira
A seguir, um belo texto da escritora pará-minense Terezinha Pereira, enfocando toda a obra de Bartolomeu Campos de Queirós. Texto publicado em 24/01/2012, na coluna que a escritora assina no Jornal Diário de Pará de Minas
De “O peixe e o pássaro”(1974) a “Vermelho Amargo” (2011)
Bartolomeu - o voo de um poeta nas asas das letras
Minerações propõe cavar o chão para extrair riquezas. Além disso, lembra o lapidar palavras para encontrar matéria de poesia. É possível. Fizeram-se os Apontamentos no escuro das noites. Todos sonharam palavras. Na verdade, não é preciso entender o poetar. É só deleitar-se. O poeta. Num dia de agosto 1944, em terras pará-minenses, nasceu um escritor poeta. De pequeno, nem intenção tinha de se tornar escritor. Queria unicamente contar uma história estória.
Foi assim. Como assim? Seu primeiro brinquedo foram as letras do alfabeto. Com o brincar com as letras e a cumplicidade da mãe, aprendeu sonhar palavras. A mãe soprava-lhe vogais, consoantes. Depois apontou-lhe os pontos. Primeiro, creio, deve ter sido o de interrogação. Eta menino perguntante! Menino também admirador. Ligeiro, já sabia manusear a exclamação. O ponto final ficou por último. Só pode. Depois, a escola completou-lhe as orações.
Com o tempo, fez-se escritor poeta afeito a fantasias com jogo de letras, a divagações, De letra em letra. Emparelha uma aqui, às vezes deixa entrar alguma no meio, mais outra atrás e mais alguma outra na frente. Constrói palavras. Permeia palavras com espaços e põe sentido. Pra melhor dizer, atiça, de quem o lê, Os cinco sentidos. É um perigo. “Por meio dos sentidos suspeitamos o mundo.”
O aroma do pão induz ao paladar. Transtorna letras e Raul vira luar. No entanto, Bichos são todos … Bichos, poeta o poeta. Devaneia com As patas da vaca, do gato, do pato e do rato numa Estória em 3 atos. Anacleto, neto, garoto esperto, veio de gaiato. Trouxe (de volta?) casos do gato Alberto, o pato Norberto e o rato Donato. Um palavreado danado. De bom. O Ovo e o Anjo
Piolho. O piolho _ ora_ esse mora na cabeça do repolho. Coitado. Do repolho _ ora. O pato pacato, pacato! Que nada. Só sabe perder para a lagosta que gosta de vencer. Outro(?) pato tem sapato e tem pé o sapo; sapo+pato dá sapato. Porém, a patroa do “seu” pato tem pé-de-pato e não nada patavina. E o Papo de pato? É pelado, penado. Depenado!
Isso não é um elefante! A fome enxerga alterado. “O estômago da formiguinha formigava, formiga faminta e feroz, formiga esfomeada, fraca e farta de fome.” Com fome, a pequena formiga, devagar, come um elefante. A formiga amiga é a que dorme no açucareiro. Desprendida. Que nem peixe; que nem pássaro. O peixe e o pássaro… Esses têm lá seus receios. Ou de anzol, de redes, de peixe maior. Até de estiagem. Ou de estilingue, que, para bem do voar, virou coisa caída de moda. E de alçapão, visgo ou chuva.
Nada a fazer. Se Até passarinho passa. Encontra e desencontra. Sabe-se que Para criar passarinho precisa de azul de céu, de aragem, de fruta no pé. Entretantos, vive o homem, convive, Sem palmeira ou sabiá, sem mar. Porém, chove e o meninomem põe sal na aguaceira que a chuva deixa no terreiro. Quisera poder trazer o mar pra frente do olhar.
Ah! Mar… longe do mar inventa-se um oceano e navega. No sonho. Na poesia, fantasia. Bom mesmo é para o Mário que é feito de mar, de ar, de rio. Em A árvore o mar é de folhas. Acolhe as borboletas, as cigarras, os grilos, as lagartas, as formigas, as abelhas…
O Pedro brinca com tintas e tem o coração cheio de domingo. Aprecia pintar borboletas a voar, a baralhar cores no ar. Se Coração não toma sol, Flora passa o dia escutando o sol. Creio, espera ouvir se é boa hora de soltar os renovos. Antes do depois, o eu fala das dores do parir, do chegar sem o querer num mundo de cor demais, de som demais.
Menino inteiro foi o filho esperado com ternura pelos pais José e Maria que moravam na mata. No dia em que ele viu o clarão do mundo, descobriram que as árvores estavam mais verdes, as flores mais encarnadas, as águas mais cristalinas, os trovões mais delicados, o infinito mais compreendido. E todos os animais foram conhecer a inteireza do menino. O certo é que o menino nasceu e partiu deixando um recado para ser lido no cosmo infinito, no espelho da água, no silêncio da pedra… Escritura faz o renascer do Menino de Belém. Mas… Que Menino é o de Belém? É um que possui o rio como rua. Flui livre. Em paz. Menino que era filho de Maria, que era filha de Ana. Contou o poeta que Maria, que ainda não lia, queria saber de o Livro de Ana, a mãe. _ “No princípio só existia o vazio. [...] Ele criou o mundo” Maria, menina, quis saber d’Ele. “Ele é o sempre_ rezou a mãe”. E a mãe conta: “No primeiro dia… , no segundo dia… , no terceiro… , no quarto … , no quinto… O sexto foi o do embelezar. O sétimo, o do contemplar.” Certeza tem o poeta de que “não há belezas sem perguntas”. E assim… “Entre o adeus do sol e o boa-noite da lua, Ana se assentava com o livro aberto sobre os joelhos. Nesta hora, um sossego mora no céu e visita a vida.
Sei por ouvir dizer. Não era só uma vez. Era uma vez, mais uma vez, mais uma vez… A mulher tinha três idades, três nomes. Maria (a não era a filha de Ana) do Céu, das Dores, das Graças. Três pares de óculos. Um para ver o perto, outro para ver o longe e mais um para procurar os outros dois. _ Menino que está na história, o que faria com tantos óculos? _ Eu? Aproximaria coisas boas. Punha lá longe as ruindades da vida. Ora, as coisas normais! Tão corriqueiras. Imperceptíveis.
De quem é o olho que vê a Matinta Perera? O guarda-chuva do guarda guarda a chuva? Ou guarda o guarda da chuva? Onde tem bruxa tem fada. Bruxa? Fada? Segredo! Guardo até amanhã. Quando chega amanhã fica para amanhã, que também tem amanhã. Como tem o tempo que dá a conhecer a Rosa dos ventos que revela a quentura do sol do verão, o desfolhar do outono, a friagem do inverno e além, o desabrochar das cores das flores. Valem os rumos da rosa, os do sol que acorda no leste e cai no sono no oeste. Contudo, a rosa não aponta os rumos dos Ciganos que surgiam “sem saber ao certo de onde vinham ou para onde iam, todavia, roubavam até o sono das crianças”.
Em Indez, o mundo não estava dividido em dois, um para as pessoas grandes outro para os miúdos. As emoções eram de todos. Silencioso era o amor. Ah! Palavras… Mistura de letras. Algumas de muitas leituras e sentido. Com elas se põe feitio ao Diário de classe: _ Menino, olha a janela! Ela. Jane. Nela. Olha a Jane na janela. E a Mariana, a Maria que do outro lado tem Ana; que tem Marina, marina, mana, Marina… É hora de saber Ler escrever e fazer conta de cabeça. Tempo de virar gente grande com coração de menino pequeno, que constrói sonhos e carrega lembranças de gentes, de fatos e de coisas do Pará e de outros lugares de Minas.
O menino aumenta de comprimento e atina que Mais com mais dá menos. É. Juntando-se mais tristeza com mais tristeza dá menos alegria. Correspondência é moldada com palavras, com permuta de palavras. Algumas que devem ser acordadas e outras que precisam dormir. Acorda trabalho, acorda justiça, acorda terra! Ora, ora. Por onde andam os mitos dos Cavaleiros das Sete Luas? De não em não. Se existe um ser (ser?) que deva ser morto é a fome. Sob pena de essa devorar a vida que Faca afiada leva. Morte tramada na calada da noite por pai e mãe. Faca no pescoço. O menino escuta e vive noite de terror, com piados de coruja e rumor de córrego e de vento nas árvores. No entanto, no final das contas, o almoço do dia seguinte é farto e feliz. Apesar do fato consumado. Quem lê, sabe.
Somos todos igualzinhos. Quando somos diferentes, o mundo fica menos pobre, mais nobre. Ser igual é perder a diferença e não marcar presença! Todos nós nascemos livres. E, libertos podemos repartir com o outro o que há de melhor na vida.
Por parte de pai, conta do avô que vem de um tempo que ficou na lembrança. O avô de O olho de vidro do meu avô. Olho vivo azul de vidro buscado na cidade grande. O neto diz que ainda via o olho do avô, cor do mar, dentro de um pires, por sobre a mesa de seu escritório. O olho de vidro do avô_ o que de mais vivo trouxe do passado. Vivo, o avô do olho de vidro que devia ser mágico, não cansava de espiar, mergulhava fundo.
Entre palavras tantas, ocorre Vida e obras de Aletrícia depois de Zoroastro _ de A a Z. É momento do riso, do pensar coisas. Aletrícia, sem amor, com dor, faz sua rotina pela ordem das letras: de a a z. Letras ficaram no lugar de sua ida paixão. Zoroastro. A rotina diária envolve o acordar, o sair da cama e o deitar derradeiro na noite. As tarefas do dia, antes as começadas com a, depois com b, … h…j…Z. Tantas letras, tantas tarefas. Foi assim que Aletrícia viveu depois de Zoroastro ir-se. (Presumo. Zorro é seu astro e a garota toma sopa de aletria).
Revelou segredos em Para ler em silêncio. Instalou o leitor diante de uma página em branco, de uma tela de computador, à cata de matéria prima - palavras. Confessou o que sentia? Até que, errando, seu pensamento foi ao tempo de menino. E veio o Tempo de voo. Tempo que não para. “Passa ligeiro e ninguém consegue tocá-lo”,justifica. “Ele tem medo de não atender aos nossos pedidos, por isso, não nos escuta.” “Viver é gastar o tempo… Viver é diminuir. (Ah, o seu tempo diminuiu ligeiro, Bartô. No último 16 de janeiro você alou-se. Largou-nos moucos, calados, carecidos.)
Existe Rosa rosa. Por outro lado, há Vermelho amargo, que em vida, foi o derradeiro. “Escrever é procurar parceiros para decifrar a intensidade dos mistérios. Escrever é ‘não saber’ e recorrer ao leitor para nos ajudar a decifrar o mistério que inaugura o escritor. [...] Escrever, digo sempre, é abrir a porta sabendo que o resto da paisagem está no coração do leitor. E mais: escrever é tomar posse dos limites.” Amargado vermelho-tomate.
Ora, leitor, se você está meio perdido… a literatura está viva. Deixe-se brincar com as palavras. Busque o texto do poeta. As partes destacadas acima são títulos da obra de Bartolomeu Campos de Queirós, aquele que um dia quis escrever uma história estória, achou o jeito e não mais parou. Habitou pequenos lugares das Minas, nos quais juntou pontos e vírgulas. Buscou interrogação e exclamação em Paris, no mundo, nas leituras. A maior parte viveu em Belo Horizonte a jogar com a fantasia, com o encantamento. Seriamente. Longos foram os seus voos. Pena que não tenha sido tão longo o seu tempo.
Carmélia Cândida
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Esteja em paz, Bartolomeu!




Nascido em Pará de Minas - MG em 1975. Possui graduação em História pela Universidade Federal de Minas Gerais (1997) e doutorado em História pela Universidade Federal de Minas Gerais (2002), com estágio (Doutorado-sanduíche/CAPES) na Universidade de Lisboa - Portugal (2002). Atualmente é Vice-diretor da Faculdade de Pará de Minas - Fapam (MG), onde já exerceu os cargos de coordenador do curso de História, coordenador do NUPE - Núcleo de Pesquisa, e foi professor nos cursos de História e Administração. Atualmente leciona nos cursos de Direito e Pedagogia. Tem experiência na área administrativa/coordenação e na área de História (graduação e pós-graduação), com ênfase em História do Brasil, História Econômica, História do Direito, História da Educação, Metodologia do Ensino de História e Metodologia da Pesquisa Histórica. É autor do livro SUBSISTÊNCIA E PODER: a política do abastecimento alimentar nas Minas setecentistas (Editora UFMG, 2008) e de artigos publicados em periódicos e livros da área de História. Um de seus trabalhos foi publicado no livro HISTÓRIA DE MINAS GERAIS - As Minas Setecentistas (Editora Autêntica, 2007), obra vencedora do PRÊMIO JABUTI 2008 na categoria Ciências Humanas. Atualmente exerce também a função de Pesquisador Institucional da Faculdade de Pará de Minas junto ao Ministério da Educação, sendo responsável pelo acompanhamento dos processos de autorização, reconhecimento e renovação de reconhecimento dos cursos de graduação da IES. Em 2009 foi eleito para a Academia de Letras de Pará de Minas. (Fonte: site do professor: 

Maurílio José da Silva teve outro livro publicado em 2000, "Palavra da Salvação", com comentários sobre os Evangelhos. Está terminando o curso de Técnico em Eletrônica e é ator do Grupo de Teatro Iluminart.

Olá! Meu nome é Carmélia. Moro em Pará de Minas (MG). Sou contadora de histórias e atriz da Cia. de Teatro Maracutaia. Fui professora por quase dez anos, trabalhei com turmas da educação infantil ao ensino médio (sou de Letras), mas agora trabalho como redatora/revisora.
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